Por Gilson Guilherme Miguel Ângelo

Resumo
O século XXI assiste a uma profunda transformação das categorias tradicionais utilizadas para interpretar a política e a economia internacionais. Durante grande parte do século XX, o mundo foi frequentemente compreendido a partir da oposição entre capitalismo e comunismo, direita e esquerda, economia de mercado e economia planificada. Todavia, as transformações ocorridas após o fim da Guerra Fria, a ascensão económica da China, a reorganização estratégica da Rússia, o fortalecimento das economias emergentes e a crescente centralidade da tecnologia e da produção demonstram que tais categorias, embora historicamente relevantes, já não são suficientes para explicar integralmente a realidade contemporânea. Este artigo propõe uma interpretação segundo a qual o mundo contemporâneo pode ser compreendido através da existência de dois grandes hemisférios estratégicos integrados por uma única realidade global: de um lado, modelos predominantemente orientados pela tradição liberal de mercado; de outro, modelos caracterizados por uma forte integração entre Estado, planeamento estratégico, capacidade produtiva e mercado. O estudo defende que a verdadeira disputa contemporânea não ocorre exclusivamente entre ideologias, mas entre capacidades nacionais de produzir, organizar, inovar, financiar e proteger a soberania económica. A produção é analisada como instrumento fundamental de poder político, económico e tecnológico. O artigo enquadra ainda a contribuição da visão GAESEMA para uma reforma produtiva e institucional orientada para os países em desenvolvimento, particularmente África, defendendo uma integração equilibrada entre Estado estratégico, iniciativa privada, conhecimento, tecnologia e desenvolvimento humano.
Palavras-chave: Ordem mundial; Soberania económica; Produção; Capitalismo de Estado; Desenvolvimento; GAESEMA.
THE TWO DOMINANT HEMISPHERES INTEGRATED BY A SINGLE REALITY: TWO PATHS COMPETING FOR GLOBAL POLITICAL, ECONOMIC AND PRODUCTIVE SOVEREIGNTY
Abstract
The twenty-first century is witnessing a profound transformation of the traditional categories used to interpret international politics and economics. For much of the twentieth century, the world was commonly understood through the opposition between capitalism and communism, right and left, market economies and centrally planned economies. However, the transformations that followed the end of the Cold War, China’s economic rise, Russia’s strategic reorganization, the strengthening of emerging economies, and the growing centrality of technology and production demonstrate that such categories, while historically relevant, are no longer sufficient to fully explain contemporary reality. This article proposes an interpretation according to which the contemporary world can be understood through the existence of two major strategic hemispheres integrated by a single global reality: on one side, models predominantly oriented by the liberal market tradition; on the other, models characterized by a strong integration between the State, strategic planning, productive capacity and markets. The study argues that the central contemporary competition is not exclusively ideological, but rather concerns national capacities to produce, organize, innovate, finance and protect economic sovereignty. Production is analysed as a fundamental instrument of political, economic and technological power. The article also introduces the GAESEMA perspective on productive and institutional reform for developing countries, particularly Africa, advocating a balanced integration between a strategic State, private initiative, knowledge, technology and human development.
Keywords: World order; Economic sovereignty; Production; State capitalism; Development; GAESEMA.
1. INTRODUÇÃO
Durante grande parte do século XX, a humanidade viveu sob uma das maiores divisões ideológicas da história moderna. O mundo político e económico era frequentemente apresentado como um espaço dividido entre dois sistemas aparentemente irreconciliáveis: de um lado, o capitalismo; do outro, o socialismo e o comunismo.
Esta divisão não era apenas teórica.
Ela influenciava:
- a organização dos Estados;
- os sistemas educativos;
- os modelos de produção;
- a estrutura das empresas;
- a propriedade dos meios económicos;
- a organização do trabalho;
- a política internacional;
- as alianças militares;
- os sistemas financeiros;
- a cultura das sociedades.
Ser capitalista ou socialista não significava apenas adoptar uma determinada política económica. Significava, frequentemente, pertencer a uma determinada visão do mundo.
Os Estados Unidos e grande parte do mundo ocidental passaram a representar, com diferentes variações internas, o modelo de economia de mercado e liberalismo político. A União Soviética e os seus aliados representaram modelos de organização política e económica centrados no papel dominante do Estado e no planeamento.
A China desenvolveu uma trajectória própria, inicialmente vinculada à revolução comunista e, posteriormente, marcada por profundas reformas económicas que introduziram mecanismos de mercado, investimento privado, comércio internacional e abertura ao capital, sem abandonar a centralidade política do Estado.
A Rússia, por sua vez, percorreu um caminho histórico distinto. Da experiência soviética passou, após o colapso da União Soviética, por uma profunda transformação económica e institucional, desenvolvendo uma estrutura em que empresas privadas, grandes corporações estratégicas e uma forte presença do Estado coexistem.
O problema contemporâneo é que muitas das antigas categorias continuam a ser utilizadas como se o mundo tivesse permanecido parado.
Mas o mundo mudou.
Hoje, uma economia pode possuir:
- empresas privadas;
- empresas públicas;
- grandes mercados;
- planeamento estatal;
- investimento estrangeiro;
- protecção industrial;
- controlo tecnológico;
- políticas sociais;
- objectivos nacionais de longo prazo.
Por essa razão, a pergunta fundamental do século XXI talvez já não seja simplesmente:
Quem é capitalista?
Ou:
Quem é comunista?
A questão tornou-se mais profunda:
Quem possui capacidade de organizar a produção, controlar tecnologias estratégicas, garantir cadeias de abastecimento, formar conhecimento, proteger a sua economia e transformar recursos em soberania?
É nesta questão que se encontra uma das grandes disputas da actualidade.
A hipótese central deste artigo é que o mundo contemporâneo pode ser compreendido como a existência de dois grandes hemisférios estratégicos, diferentes na forma como articulam Estado, mercado e sociedade, mas integrados por uma única realidade: a economia mundial, a interdependência tecnológica e a necessidade universal de produzir.
Não se trata, portanto, de dois mundos completamente separados.
Trata-se de dois caminhos que coexistem, competem e dependem um do outro.
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1. A antiga divisão ideológica do mundo
A oposição entre capitalismo e socialismo marcou profundamente a organização internacional durante o século XX.
Karl Marx e Friedrich Engels desenvolveram uma crítica estrutural ao capitalismo, colocando a produção e as relações de propriedade no centro da organização social. Adam Smith, por outro lado, tornou-se uma das referências fundamentais da tradição económica associada à divisão do trabalho, aos mercados e à iniciativa individual.
Posteriormente, John Maynard Keynes demonstrou que mesmo as economias capitalistas necessitavam de formas importantes de intervenção estatal, particularmente em períodos de crise.
Joseph Schumpeter destacou o papel da inovação e da transformação produtiva como motores do desenvolvimento económico.
Karl Polanyi demonstrou que os mercados nunca funcionam completamente isolados da sociedade e das instituições políticas.
Estas contribuições permitem compreender um facto essencial:
Nenhuma economia moderna funciona exclusivamente através do Estado ou exclusivamente através do mercado.
Todas as grandes economias modernas possuem, em diferentes proporções, combinações entre:
- instituições públicas;
- empresas privadas;
- sistemas financeiros;
- políticas industriais;
- mecanismos de mercado;
- investimentos estratégicos.
A diferença fundamental encontra-se na intensidade, na organização e nos objectivos dessa combinação.
2.2. O fim da Guerra Fria não significou o fim da competição
O fim da Guerra Fria levou muitos analistas a acreditar que o modelo liberal de mercado representava o destino definitivo da humanidade.
Contudo, a história posterior demonstrou que a competição internacional não desapareceu.
Ela apenas mudou de forma.
No século XXI, a disputa deslocou-se progressivamente para:
- tecnologia;
- inteligência artificial;
- semicondutores;
- energia;
- cadeias globais de abastecimento;
- telecomunicações;
- indústria;
- espaço;
- infra-estruturas;
- sistemas financeiros;
- dados;
- segurança alimentar.
Assim, a competição contemporânea tornou-se cada vez menos abstractamente ideológica e cada vez mais material.
A grande pergunta passou a ser:
Quem produz?
E, posteriormente:
Quem controla aquilo que é produzido?
A capacidade produtiva tornou-se novamente uma questão de segurança nacional.
2.3. A transformação chinesa e a complexidade dos modelos contemporâneos
A China representa um dos exemplos mais complexos da transformação da economia mundial.
Não é cientificamente rigoroso afirmar simplesmente que a China deixou de ser comunista e se tornou uma economia capitalista convencional.
A sua estrutura política continua formalmente organizada sob a liderança do Partido Comunista Chinês, enquanto a sua economia incorpora mercados, propriedade privada, empresas públicas, investimento estrangeiro e uma forte orientação estatal.
Por esta razão, diferentes académicos utilizam conceitos distintos para interpretar o modelo chinês:
- capitalismo de Estado;
- capitalismo partidário-estatal;
- economia socialista de mercado;
- capitalismo sino;
- economia híbrida;
- economia de transição.
A literatura académica demonstra precisamente que a China desafia classificações simplistas. Estudos sobre capitalismo de Estado destacam a importância da interacção entre capital estatal, privado e estrangeiro na sua transformação económica.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico também observa que a combinação entre orientação estatal, metas estratégicas, apoio público e expansão de espaços económicos privados constitui uma característica importante do modelo económico chinês.
Esta realidade oferece uma importante lição ao debate internacional:
O desenvolvimento económico não depende necessariamente da escolha absoluta entre Estado ou mercado.
Pode depender, em grande medida, da capacidade de coordenar ambos.
2.4. A Rússia e a reorganização da soberania económica
A Rússia contemporânea também não pode ser compreendida através de uma classificação ideológica simples.
A economia russa combina:
- empresas privadas;
- grandes grupos empresariais;
- recursos naturais estratégicos;
- empresas com participação estatal;
- sectores considerados fundamentais para a segurança nacional;
- intervenção governamental;
- políticas industriais.
O seu modelo económico possui características próprias, derivadas da herança soviética, das reformas posteriores a 1991 e da necessidade de reorganizar sectores estratégicos.
A experiência russa demonstra que a soberania económica pode ser procurada através da manutenção ou reconstrução de capacidades produtivas nacionais.
Todavia, uma análise académica equilibrada deve reconhecer que o fortalecimento de determinadas capacidades industriais não elimina problemas económicos estruturais, financeiros, demográficos ou institucionais.
A soberania produtiva não significa ausência de desafios.
Significa capacidade de enfrentar desafios sem depender integralmente de uma única estrutura externa.
3. METODOLOGIA
Este artigo adopta uma metodologia qualitativa, baseada em revisão bibliográfica, análise histórica e interpretação comparativa da economia política internacional.
Foram considerados:
- autores clássicos da economia política;
- estudos contemporâneos sobre capitalismo de Estado;
- literatura sobre desenvolvimento e industrialização;
- documentos de organizações internacionais;
- estudos sobre a transformação económica chinesa;
- análises sobre a reorganização económica e produtiva da Rússia;
- perspectivas relacionadas com a transformação da ordem mundial.
O estudo não pretende defender a superioridade absoluta de qualquer sistema político.
A sua finalidade é compreender as transformações estruturais que estão a modificar a relação entre:
Estado + Mercado + Produção + Tecnologia + Soberania.
A análise é igualmente orientada por uma perspectiva interdisciplinar, reconhecendo que o desenvolvimento económico não pode ser separado da educação, da cultura, das instituições, da ciência e da organização social.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Os dois hemisférios estratégicos
A principal contribuição conceptual deste artigo consiste em propor que o mundo contemporâneo pode ser interpretado através de dois grandes hemisférios estratégicos.
O primeiro pode ser denominado:
HEMISFÉRIO DA ORGANIZAÇÃO LIBERAL DE MERCADO
Caracteriza-se predominantemente por:
- maior centralidade das empresas privadas;
- forte presença dos mercados financeiros;
- liberdade económica;
- competição empresarial;
- circulação internacional de capitais;
- inovação baseada na iniciativa privada;
- instituições democráticas liberais, em muitos dos seus Estados.
Este modelo foi decisivo para o desenvolvimento de importantes centros tecnológicos, financeiros e científicos.
O segundo pode ser denominado:
HEMISFÉRIO DA ORGANIZAÇÃO ESTRATÉGICA ESTATAL-PRODUTIVA
Caracteriza-se por uma maior integração entre:
- Estado;
- planeamento;
- produção;
- segurança nacional;
- empresas estratégicas;
- tecnologia;
- metas nacionais de longo prazo.
Este hemisfério não representa necessariamente a eliminação do mercado.
Pelo contrário.
Em muitos casos, utiliza o mercado como instrumento dentro de objectivos nacionais mais amplos.
A diferença central encontra-se na seguinte questão:
O mercado define integralmente os objectivos nacionais ou é integrado numa estratégia nacional previamente definida?
Esta diferença constitui uma das chaves para compreender a transformação contemporânea.
4.2. Uma única realidade: a integração mundial
Apesar da existência de diferentes modelos, o mundo está profundamente integrado.
A China necessita de mercados.
Os Estados Unidos necessitam de cadeias globais.
A Europa necessita de energia, tecnologia e mercados externos.
A Rússia necessita de relações comerciais e tecnológicas.
África necessita de capital, tecnologia e industrialização.
A América Latina necessita de diversificar as suas estruturas produtivas.
Portanto, a nova disputa mundial não ocorre entre sistemas completamente isolados.
Ela ocorre dentro de uma mesma realidade global.
Esta realidade é caracterizada por:
- comércio;
- produção;
- tecnologia;
- informação;
- finanças;
- recursos naturais;
- circulação de conhecimento.
É por isso que a expressão dois hemisférios integrados por uma única realidade representa uma tentativa de superar a visão simplista de um mundo dividido apenas por ideologias.
5. A PRODUÇÃO COMO A NOVA ARMA DA SOBERANIA
Uma das conclusões mais importantes desta análise é que a produção voltou a ocupar uma posição central na definição do poder internacional.
Um país que não produz depende.
Um país que depende excessivamente perde capacidade de decisão.
A produção significa:
- alimentos;
- medicamentos;
- energia;
- máquinas;
- tecnologia;
- software;
- telecomunicações;
- veículos;
- infra-estruturas;
- equipamentos científicos.
Assim, a produção não é apenas uma actividade económica.
Ela tornou-se uma dimensão estratégica da soberania.
O poder de uma nação depende, cada vez mais, da sua capacidade de transformar:
conhecimento em tecnologia;
tecnologia em produção;
produção em riqueza;
riqueza em desenvolvimento;
desenvolvimento em soberania.
A China demonstrou de forma particularmente significativa a importância da industrialização orientada para objectivos nacionais.
A transformação de uma economia inicialmente associada à produção de baixo custo para uma economia capaz de competir em sectores tecnológicos demonstra a importância da continuidade institucional e do planeamento de longo prazo.
Mas seria igualmente incorreto afirmar que esta transformação foi exclusivamente resultado do Estado.
Ela resultou da combinação entre:
- investimento público;
- empresas privadas;
- capital estrangeiro;
- educação;
- infra-estruturas;
- comércio internacional;
- transferência tecnológica;
- políticas industriais.
É precisamente esta capacidade de combinação que merece atenção dos países em desenvolvimento.
6. A DISCIPLINA SOCIAL E A QUESTÃO DA CONTINUIDADE ESTRATÉGICA
Uma das reflexões mais relevantes para o debate contemporâneo diz respeito à relação entre desenvolvimento e continuidade.
Grandes projectos nacionais necessitam frequentemente de períodos longos para produzir resultados.
Infra-estruturas não são construídas em apenas um mandato.
Sistemas educativos não são transformados em poucos anos.
A industrialização não ocorre num único ciclo político.
A transformação tecnológica exige décadas.
Neste sentido, determinados modelos políticos e administrativos possuem maior facilidade para manter políticas estratégicas de longo prazo.
Contudo, esta observação deve ser tratada com equilíbrio.
A continuidade não pode ser confundida automaticamente com eficiência.
Da mesma forma, a alternância política não deve ser confundida automaticamente com instabilidade.
Existem democracias capazes de manter grandes estratégias nacionais durante décadas.
E existem sistemas centralizados incapazes de produzir eficiência.
A verdadeira questão é outra:
Uma nação consegue construir instituições que sobrevivam às mudanças de governos e garantam continuidade às prioridades nacionais?
Este deve ser um dos grandes objectivos das reformas institucionais do século XXI.
7. DA IDEOLOGIA À CAPACIDADE DE ORGANIZAÇÃO
A nova competição internacional demonstra que os países mais preparados serão aqueles capazes de organizar simultaneamente:
- Estado;
- empresas;
- universidades;
- centros de investigação;
- tecnologia;
- produção;
- educação;
- infra-estruturas;
- sistemas financeiros.
O desenvolvimento deixa, assim, de ser apenas uma discussão sobre ideologia.
Transforma-se numa questão de capacidade organizacional.
A pergunta que os países devem fazer não é:
Devemos copiar integralmente a China?
Ou:
Devemos copiar integralmente os Estados Unidos?
A pergunta correcta é:
O que podemos aprender com diferentes modelos sem perder a nossa soberania, cultura e capacidade de decidir?
É aqui que África possui uma oportunidade histórica.
8. ÁFRICA E A NOVA OPORTUNIDADE HISTÓRICA
O período posterior à Segunda Guerra Mundial criou uma nova arquitectura internacional.
A criação das Nações Unidas e a adopção da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabeleceram novos princípios internacionais relacionados com dignidade, direitos e cooperação. A Declaração foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de Dezembro de 1948.
Ao mesmo tempo, a reorganização económica internacional do pós-guerra criou novas instituições e modificou profundamente as relações entre os Estados. O período posterior a 1945 coincidiu também com a expansão dos movimentos de independência e com a entrada de numerosos países africanos e asiáticos na vida internacional.
A África actual enfrenta uma oportunidade semelhante, embora num contexto diferente.
O continente possui:
- uma população jovem;
- recursos naturais;
- potencial agrícola;
- minerais estratégicos;
- enorme potencial energético;
- possibilidades de industrialização;
- expansão tecnológica;
- mercados em crescimento.
Contudo, recursos não garantem desenvolvimento.
O recurso precisa ser transformado.
Uma mina sem indústria pode gerar dependência.
Um campo agrícola sem transformação industrial pode gerar pobreza.
Um recurso tecnológico sem educação pode gerar exclusão.
Portanto, o grande desafio africano é:
Transformar recursos em sistemas produtivos.
9. A PROPOSTA GAESEMA PARA A REFORMA PRODUTIVA E INSTITUCIONAL
É neste ponto que a perspectiva GAESEMA pode apresentar uma contribuição própria.
A GAESEMA não deve ser entendida como defensora de uma simples importação de modelos estrangeiros.
A sua proposta deve partir de um princípio:
Nenhuma nação se desenvolve integralmente copiando outra. O desenvolvimento sustentável exige capacidade de aprender, adaptar e criar.
A perspectiva GAESEMA para a reforma produtiva pode ser estruturada em sete dimensões fundamentais.
9.1. Estado Estratégico
O Estado deve possuir capacidade para:
- definir prioridades nacionais;
- planear infra-estruturas;
- proteger sectores estratégicos;
- promover educação;
- garantir estabilidade institucional.
Estado estratégico não significa necessariamente Estado proprietário de tudo.
Significa Estado capaz de pensar no futuro.
9.2. Mercado Produtivo
A iniciativa privada deve ser incentivada.
Mas o crescimento económico deve estar ligado à produção real.
Uma economia baseada apenas em:
- importações;
- especulação;
- consumo;
- dependência externa;
dificilmente constrói soberania.
A empresa privada deve ser integrada num ambiente favorável à inovação e à industrialização.
9.3. Conhecimento como Infra-estrutura Nacional
Universidades não devem funcionar isoladamente da economia.
O conhecimento deve estar ligado a:
- indústria;
- saúde;
- agricultura;
- tecnologia;
- administração pública.
A educação deve ser compreendida como uma infra-estrutura produtiva.
9.4. Tecnologia e Soberania Digital
O século XXI demonstrou que quem controla:
- dados;
- servidores;
- redes;
- inteligência artificial;
- software;
possui uma nova forma de poder.
A África precisa desenvolver capacidades próprias.
Não necessariamente isolando-se do mundo.
Mas evitando uma dependência absoluta.
9.5. Produção como Política de Estado
Cada país deve identificar sectores prioritários.
Entre eles:
- agricultura;
- agro-indústria;
- energia;
- tecnologia;
- medicamentos;
- educação;
- infra-estruturas.
A produção deve deixar de ser apenas uma política económica de curto prazo.
Deve tornar-se uma política nacional de longo prazo.
9.6. Cooperação entre os Dois Hemisférios
A África não deve ser obrigada a escolher cegamente entre Oriente e Ocidente.
A nova diplomacia africana deve defender:
Cooperação sem submissão.
Comércio sem dependência.
Tecnologia sem perda de soberania.
Parceria sem neocolonialismo.
A multipolaridade pode representar uma oportunidade para negociar com diferentes centros de poder.
9.7. Desenvolvimento Humano como Objectivo Final
A produção não deve ser um fim em si mesma.
Uma nação não pode considerar-se desenvolvida apenas porque produz muito.
É necessário perguntar:
Quem beneficia da produção?
A riqueza reduz a pobreza?
A tecnologia melhora a educação?
O crescimento cria dignidade?
A economia melhora a vida das famílias?
Aqui reside a dimensão social da proposta GAESEMA.
A economia deve servir a humanidade.
E não a humanidade servir exclusivamente à economia.
10. A NOVA DISPUTA PELA SOBERANIA GLOBAL
O mundo contemporâneo não está simplesmente a assistir ao retorno da Guerra Fria.
A realidade é mais complexa.
A competição actual envolve:
- comércio;
- tecnologia;
- produção;
- dados;
- energia;
- moedas;
- rotas;
- inteligência artificial;
- infra-estruturas.
Por isso, talvez seja inadequado dizer que uma única potência substituirá integralmente outra.
A tendência mais provável é a coexistência de diferentes centros de poder.
Os Estados Unidos continuarão a possuir enorme capacidade científica, tecnológica, financeira e militar.
A China continuará a desempenhar um papel central na produção, no comércio e na tecnologia mundial.
A Europa continuará a possuir capacidade industrial, científica e regulatória.
A Índia possui potencial crescente.
A Rússia continuará a desempenhar um papel relevante em recursos, energia, segurança e geopolítica.
A África possui potencial para se tornar um dos espaços decisivos da economia do século XXI.
A nova ordem mundial será, provavelmente, mais complexa e multipolar.
11. CONCLUSÃO
O século XX foi marcado por grandes divisões ideológicas.
Capitalismo.
Socialismo.
Comunismo.
Direita.
Esquerda.
Estas categorias foram fundamentais para compreender a história.
Mas o século XXI exige novas ferramentas de interpretação.
O mundo contemporâneo demonstra que os Estados mais influentes não são definidos apenas pelas ideologias que proclamam.
São definidos pela sua capacidade de:
- produzir;
- inovar;
- organizar;
- educar;
- financiar;
- proteger;
- planear.
É neste contexto que se propõe a ideia dos dois hemisférios dominantes integrados por uma única realidade.
Um hemisfério privilegia predominantemente a tradição liberal de mercado.
Outro privilegia uma integração mais profunda entre Estado, planeamento estratégico e capacidade produtiva.
Contudo, ambos participam da mesma economia mundial.
Ambos dependem da produção.
Ambos dependem da tecnologia.
Ambos necessitam de mercados.
Ambos enfrentam crises globais.
A grande transformação contemporânea consiste, portanto, no reconhecimento de que a produção voltou ao centro da soberania.
A produção não deve ser compreendida apenas como uma actividade económica.
Ela é:
- poder;
- segurança;
- independência;
- emprego;
- tecnologia;
- capacidade nacional.
A China demonstra a importância da combinação entre planeamento, Estado, mercado e produção.
A Rússia demonstra a importância da preservação de capacidades estratégicas e industriais, embora também enfrente desafios estruturais significativos.
Os Estados Unidos demonstram a força da inovação, das universidades, das empresas e dos mercados de capitais.
A Europa demonstra a importância das instituições, da tecnologia e da integração económica.
Nenhum destes modelos deve ser copiado integralmente.
Cada sociedade precisa construir o seu próprio caminho.
Para África, a grande oportunidade consiste em deixar de ser apenas território de recursos e tornar-se território de transformação.
Transformar matérias-primas.
Transformar conhecimento.
Transformar tecnologia.
Transformar juventude em capacidade produtiva.
A visão GAESEMA propõe precisamente esta reflexão:
O futuro não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita.
O futuro não pertence exclusivamente ao Estado ou ao mercado.
O futuro pertence às sociedades capazes de integrar conhecimento, produção, tecnologia, humanidade e soberania.
A nova disputa mundial não deve ser interpretada como uma guerra inevitável entre civilizações.
Pode e deve ser compreendida como uma oportunidade para construir uma nova cultura internacional de cooperação competitiva.
Uma cultura em que os países possam competir sem destruir-se.
Produzir sem explorar.
Desenvolver sem excluir.
Cooperar sem perder soberania.
É neste equilíbrio que poderá nascer uma nova arquitectura de desenvolvimento para o século XXI.
E é nesta nova realidade que África pode deixar de ser apenas objecto da história mundial para assumir plenamente a condição de sujeito da sua própria produção, economia, ciência e soberania.
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GILSON GUILHERME MIGUEL ÂNGELO. Perspectiva GAESEMA sobre Soberania Produtiva, Conhecimento, Tecnologia e Desenvolvimento. Contribuição conceptual e proposta de reforma interdisciplinar, 2026.
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